Não me lembro de quanto custou o jeans, lembro que provei e amei, ficou
lindo! Olhei-me no espelho e disse: perfeito, vestiu ótimo, estou linda! Posso
usar com várias blusinhas que tenho – pensei.
Nem
bem desci do carro, pensei se tinha mesmo que parar naquele posto de gasolina.
Sim tinha, aquela loja de conveniência era a única dos próximos dez quilômetros,
e eu precisava sacar dinheiro para pagar o pedágio, estava absolutamente sem
dinheiro algum! Senti raiva, eu e minha mania de resolver tudo no sistema
débito/crédito. Invariavelmente tenho muita vontade de rir quando as “moças que
passam o cartão” perguntam no automático “é debito ou credito?” (risos). Mas
deixarei as “moças que passam o cartão”, quietas. Parei o carro, tinha uns oito
carros estacionados bem na frente, e vi de longe que a conveniência onde o
caixa ficava localizado estava lotada, de homens, muitos, uns de uniforme de
empresas de construção civil, outros de terno, outros no celular, lanchando,
rindo, tomando um café, eram absolutamente a maioria dentro da loja que não
tinha mais que vinte metros quadrados. Logo na hora da dúvida se era para “puxar
ou empurrar” a porta de vidro, eu já me senti estranha, um angustiante incomodo
de ser pluridirecionalmente observada, e num ímpeto quase de defesa tentei
parecer mais desengonçada do que meus saltos altos e meu jeans que eu amava me
deixavam, mas não tinha jeito. Eu estava infalivelmente linda? Não! Eu era
mulher! A invasora de um ambiente cheio de sorrisos altos e vozes graves;
quando tive que ficar de costas para a maioria deles para sacar o dinheiro,
nossa! Quantos pescoços retorcidos, quantos olhares, cutucadas, os solitários mais
discretos, os em bando nem sequer podiam disfarçar. Como disse no inicio não lembro
quanto me custou o jeans, e nem quantas combinações de blusinhas já usei com
ele, só lembro bem do sentimento de indignação que adentrou em mim naquele dia.
O que poderia justificar que eu e tantas outras mulheres que a todo minuto
ficam no mínimo constrangidas a passar numa calçada que só tenha homens, digo
constrangidas no mínimo, por que têm as cantadas, os olhares de baixo para
cima, as passadas de mão e tantas outras violências. Violentada. Sim. Tantas
vezes ouço mulheres deixando de ir e vir por medo de serem assediadas, não
podem andar de ônibus, não podem sentar num restaurante se estiverem sozinhas,
não podem ficar para fechar o estabelecimento onde trabalham, não podem vestir
o que tiverem vontade. Quer dizer, podem, mas serão apontadas como culpadas por
qualquer violência que possa acontecer. E que vai acontecer. Gente que mundo é
esse? Resposta, eis as opções que temos: sociedade machista, permissividade
social dos homens, testosterona, escala evolutiva, herança cultural (“leia-se: ah,
mas ele é homem”). Eu não aceito nenhuma delas, não admito que mulheres
ofusquem seu brilho de ser mulher, sua individualidade, sua força, sua luz. O
que acontece com o cromossomo Y? Tem impulsos sexuais intempestivos? Não há
controle? Perdoem-me os homens que não são assim (existe?), não se ofendam,
mulheres também não se ofendam, ignore-os, responda-os à altura, não se
submetam, denunciem! Por favor, denunciem! O mais difícil é que muitas mulheres
agem exatamente igual a esses homens permitindo-se serem tratadas como “perdição”,
“vem com esse shortinho”, “ta pedindo” – e aceitando que qualquer conduta seja
criticada e violentada. Feminista? Não gosto dos “ismos”. Prefiro pensar que
sou humana, que tenho sentimentos, que exijo respeito e em troca Eu respeito homens
ou mulheres, de short, saias, com e sem camisas, respeito sempre, direito de ir
e vir, tranquilidade para viver em sociedade, para viver em paz. Na loja de conveniência
eu não era a única mulher, a “moça que passa o cartão” também estava lá, com um
uniforme tão largo que parecia de outra pessoa, talvez de um homem, a julgar
pelo corte reto, que não é nem um pouco apropriado (nem confortável) para as
curvas femininas, talvez essa seja a estratégia do “dono” da conveniência, ou talvez
por conveniência seja prudente que mulheres que trabalham em lugares muito
frequentados por homens usem esse tipo de “equipamento de proteção individual”,
com bonezinho e tudo, qualquer coisa que deixe o ser humano feminino mais difícil
de ser detectado, visto, identificado, a salvo; salve, salve!
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