sexta-feira, 25 de julho de 2014

Feminista?



Não me lembro de quanto custou o jeans, lembro que provei e amei, ficou lindo! Olhei-me no espelho e disse: perfeito, vestiu ótimo, estou linda! Posso usar com várias blusinhas que tenho – pensei.
                Nem bem desci do carro, pensei se tinha mesmo que parar naquele posto de gasolina. Sim tinha, aquela loja de conveniência era a única dos próximos dez quilômetros, e eu precisava sacar dinheiro para pagar o pedágio, estava absolutamente sem dinheiro algum! Senti raiva, eu e minha mania de resolver tudo no sistema débito/crédito. Invariavelmente tenho muita vontade de rir quando as “moças que passam o cartão” perguntam no automático “é debito ou credito?” (risos). Mas deixarei as “moças que passam o cartão”, quietas. Parei o carro, tinha uns oito carros estacionados bem na frente, e vi de longe que a conveniência onde o caixa ficava localizado estava lotada, de homens, muitos, uns de uniforme de empresas de construção civil, outros de terno, outros no celular, lanchando, rindo, tomando um café, eram absolutamente a maioria dentro da loja que não tinha mais que vinte metros quadrados. Logo na hora da dúvida se era para “puxar ou empurrar” a porta de vidro, eu já me senti estranha, um angustiante incomodo de ser pluridirecionalmente observada, e num ímpeto quase de defesa tentei parecer mais desengonçada do que meus saltos altos e meu jeans que eu amava me deixavam, mas não tinha jeito. Eu estava infalivelmente linda? Não! Eu era mulher! A invasora de um ambiente cheio de sorrisos altos e vozes graves; quando tive que ficar de costas para a maioria deles para sacar o dinheiro, nossa! Quantos pescoços retorcidos, quantos olhares, cutucadas, os solitários mais discretos, os em bando nem sequer podiam disfarçar. Como disse no inicio não lembro quanto me custou o jeans, e nem quantas combinações de blusinhas já usei com ele, só lembro bem do sentimento de indignação que adentrou em mim naquele dia. O que poderia justificar que eu e tantas outras mulheres que a todo minuto ficam no mínimo constrangidas a passar numa calçada que só tenha homens, digo constrangidas no mínimo, por que têm as cantadas, os olhares de baixo para cima, as passadas de mão e tantas outras violências. Violentada. Sim. Tantas vezes ouço mulheres deixando de ir e vir por medo de serem assediadas, não podem andar de ônibus, não podem sentar num restaurante se estiverem sozinhas, não podem ficar para fechar o estabelecimento onde trabalham, não podem vestir o que tiverem vontade. Quer dizer, podem, mas serão apontadas como culpadas por qualquer violência que possa acontecer. E que vai acontecer. Gente que mundo é esse? Resposta, eis as opções que temos: sociedade machista, permissividade social dos homens, testosterona, escala evolutiva, herança cultural (“leia-se: ah, mas ele é homem”). Eu não aceito nenhuma delas, não admito que mulheres ofusquem seu brilho de ser mulher, sua individualidade, sua força, sua luz. O que acontece com o cromossomo Y? Tem impulsos sexuais intempestivos? Não há controle? Perdoem-me os homens que não são assim (existe?), não se ofendam, mulheres também não se ofendam, ignore-os, responda-os à altura, não se submetam, denunciem! Por favor, denunciem! O mais difícil é que muitas mulheres agem exatamente igual a esses homens permitindo-se serem tratadas como “perdição”, “vem com esse shortinho”, “ta pedindo” – e aceitando que qualquer conduta seja criticada e violentada. Feminista? Não gosto dos “ismos”. Prefiro pensar que sou humana, que tenho sentimentos, que exijo respeito e em troca Eu respeito homens ou mulheres, de short, saias, com e sem camisas, respeito sempre, direito de ir e vir, tranquilidade para viver em sociedade, para viver em paz. Na loja de conveniência eu não era a única mulher, a “moça que passa o cartão” também estava lá, com um uniforme tão largo que parecia de outra pessoa, talvez de um homem, a julgar pelo corte reto, que não é nem um pouco apropriado (nem confortável) para as curvas femininas, talvez essa seja a estratégia do “dono” da conveniência, ou talvez por conveniência seja prudente que mulheres que trabalham em lugares muito frequentados por homens usem esse tipo de “equipamento de proteção individual”, com bonezinho e tudo, qualquer coisa que deixe o ser humano feminino mais difícil de ser detectado, visto, identificado, a salvo; salve, salve!

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