Músculos,
ossos, nervos, vasos! Enlouquecida acadêmica tentando terminar o trabalho, e
que trabalho, estava calor, meus pulsos ferviam, e eu tinha que terminar, mas eu
estava terminada na impaciência, máquina malditas que não nos obedecem, net
discada e calor!
Eu
já disse que estava muitooooo calor? Ah era domingo, e ela tinha 8 anos.
E
de repente uma Luz, de vestidinho rosa até os joelhos e o cabelo solto, a
primeira batida na porta: a pergunta “-Tia tu tem papel?” Tia dá o papel e a net trava novamente; a segunda batida na porta “-Tia
tu tem caneta?” Tia dá aquela sem
tampa que tinha na mesa e os documentos parecem ter vontade própria; a terceira
batida na porta “-Tia vamos brincar de repórter?” Tia dá um sorriso amarelo e um minuto de atenção... A Luz em forma
de menina senta no chão e começa a escrever. O sentar ali deveria estar menos
calor, fato.
Ela
nunca deixou de me surpreender, nunca mesmo, com o seu material pronto, suas
ideias prontas, ela levantou-se linda e meiga, era sua entrevista, era seu
mundo de criança, era eu ali diante daquele ser tão ingênuo e tão encantador:
“-
Qual o seu nome?” Amanda
“-Qual
a sua idade?” 24 anos
“-Do
que você tem raiva?”
Paro
tudo na mente ofuscada e os olhos mal veem o rosa do vestido e a resposta da
minha boca foi mais rápida do que a do computador (processando....)
-TENHO
RAIVA DO QUE O COMPUTADOR ESTÁ FAZENDO!
Ela
me olhou e riu...ela riu...ela riu...e eu poderia repetir mil vezes e tentar
achar os melhores adjetivos para descrever aquele sorriso, e de nada
adiantaria, a mente abriu-se em ânimo, o coração palpitou de maneira mais
frenética, sumiram-se as ansiedades, e eu ali diante de tanta superioridade, um
coração grandioso de 8 anos de idade, que me deu a chance de não perder meu
domingo se preocupando com o que eu não poderia mudar, e eu me rendi àquela
entrevista tão bem elaborada, tudo tão caprichado, envolvida pelo coração torto
feito pela tinta da caneta velha, do papel amassado e do chão frio onde me
sentei ao lado dela e dei um abraço, que ela rejeitou porque estava trabalhando, é meus caros leitores...trabalhando
a alma, dentro de alguns minutos, quem estaria era eu.
“-Do
que você gosta?”
A
essa altura meus olhos estavam transparecendo a alegria de conviver com alguém tão
especial, tão pequena expressão do amor.
-GOSTO DA MINHA FAMÍLIA.
Tive
que assinar no local indicado para que o documento tivesse validade! Meu Deus foi
uma entrevista séria! O que há de brincadeira numa criança de 8 anos te
perguntar do que você tem raiva e do que você gosta? Nada. A reflexão que atingiu a minha alma é eterna, eu respondi sem
pensar e ela mesma com seus pequenos punhos escreveu e eu assinei. Ela claro, a
repórter assinou também. O poder das famosas armas brancas dos meus rabiscos, o
que me faz proclamar coisas que jamais queria dizer, e o papel que estaria em
branco hoje carregam a prova concreta de uma tarde em que aprendi com ela
Eduarda que tanto já me ensinou, Ela que me fez esquecer um problema e
sentar-me no chão com a sua deliciosa
companhia, Ela que foi Deus mandando eu não me preocupar com coisas tão banais,
foi Ela que foi o sorriso do meu rosto e que foi o orgulho do meu coração.Hoje
agradeço a mim mesma por ter parado e vivido um momento tão emocionante e banal e que levo até hoje quando não deixo nenhuma preocupação me vencer, eu a
troco mesmo por alguns instantes por alguma bobagem e ai o calor passa e o
trabalho se encerra com êxito.
Não
há nada de banal em uma criança de 8 anos te entrevistar; ela quis saber o que
a Tia gostava e tinha raiva, com seu
suave antônimo, sem “ódio”, no máximo uma raivinha, amor criança usa muito.
Criança é muito. EDUARDA é muito pra mim.
Amanda D Apolinário
