sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ENTREVISTA


Músculos, ossos, nervos, vasos! Enlouquecida acadêmica tentando terminar o trabalho, e que trabalho, estava calor, meus pulsos ferviam, e eu tinha que terminar, mas eu estava terminada na impaciência, máquina malditas que não nos obedecem, net discada e calor!
Eu já disse que estava muitooooo calor? Ah era domingo, e ela tinha 8 anos.
E de repente uma Luz, de vestidinho rosa até os joelhos e o cabelo solto, a primeira batida na porta: a pergunta “-Tia tu tem papel?” Tia dá o papel e a net trava novamente; a segunda batida na porta “-Tia tu tem caneta?” Tia dá aquela sem tampa que tinha na mesa e os documentos parecem ter vontade própria; a terceira batida na porta “-Tia vamos brincar de repórter?” Tia dá um sorriso amarelo e um minuto de atenção... A Luz em forma de menina senta no chão e começa a escrever. O sentar ali deveria estar menos calor, fato.
Ela nunca deixou de me surpreender, nunca mesmo, com o seu material pronto, suas ideias prontas, ela levantou-se linda e meiga, era sua entrevista, era seu mundo de criança, era eu ali diante daquele ser tão ingênuo e tão encantador:
“- Qual o seu nome?” Amanda
“-Qual a sua idade?” 24 anos
“-Do que você tem raiva?”
Paro tudo na mente ofuscada e os olhos mal veem o rosa do vestido e a resposta da minha boca foi mais rápida do que a do computador (processando....)
-TENHO RAIVA DO QUE O COMPUTADOR ESTÁ FAZENDO!
Ela me olhou e riu...ela riu...ela riu...e eu poderia repetir mil vezes e tentar achar os melhores adjetivos para descrever aquele sorriso, e de nada adiantaria, a mente abriu-se em ânimo, o coração palpitou de maneira mais frenética, sumiram-se as ansiedades, e eu ali diante de tanta superioridade, um coração grandioso de 8 anos de idade, que me deu a chance de não perder meu domingo se preocupando com o que eu não poderia mudar, e eu me rendi àquela entrevista tão bem elaborada, tudo tão caprichado, envolvida pelo coração torto feito pela tinta da caneta velha, do papel amassado e do chão frio onde me sentei ao lado dela e dei um abraço, que ela rejeitou porque estava trabalhando, é meus caros leitores...trabalhando a alma, dentro de alguns minutos, quem estaria era eu.
“-Do que você gosta?”
A essa altura meus olhos estavam transparecendo a alegria de conviver com alguém tão especial, tão pequena expressão do amor.
                -GOSTO DA MINHA FAMÍLIA.
Tive que assinar no local indicado para que o documento tivesse validade! Meu Deus foi uma entrevista séria! O que há de brincadeira numa criança de 8 anos te perguntar do que você tem raiva e do que você gosta? Nada. A reflexão que atingiu a minha alma é eterna, eu respondi sem pensar e ela mesma com seus pequenos punhos escreveu e eu assinei. Ela claro, a repórter assinou também. O poder das famosas armas brancas dos meus rabiscos, o que me faz proclamar coisas que jamais queria dizer, e o papel que estaria em branco hoje carregam a prova concreta de uma tarde em que aprendi com ela Eduarda que tanto já me ensinou, Ela que me fez esquecer um problema e sentar-me  no chão com a sua deliciosa companhia, Ela que foi Deus mandando eu não me preocupar com coisas tão banais, foi Ela que foi o sorriso do meu rosto e que foi o orgulho do meu coração.Hoje agradeço a mim mesma por ter parado e vivido um momento tão emocionante e banal e que levo até hoje quando não deixo nenhuma preocupação me vencer, eu a troco mesmo por alguns instantes por alguma bobagem e ai o calor passa e o trabalho se encerra com êxito.
Não há nada de banal em uma criança de 8 anos te entrevistar; ela quis saber o que a Tia gostava e tinha raiva, com seu suave antônimo, sem “ódio”, no máximo uma raivinha, amor criança usa muito. Criança é muito. EDUARDA é muito pra mim.
Amanda D Apolinário

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Farsas Sociais


Não me culpo pela solidão que senti, em meio a tanta gente ao meu lado eu estava só, e de fato, tantos artefatos eu recebi, e hoje nem mesmo vejo-os... Pó! E de tão profunda ingratidão senti-me culpada, eu não sabia como retribuir o que eu não ganhei, e como sentir-me feliz? Achei por muito tempo que gostasse de sofrer, não! Vejo que gosto de ser feliz, apenas sou suficientemente simples para achar-me apenas um labirinto de emoções, não julgo as pessoas que passaram por mim, apenas encontro-me num patamar que vai além de fins de semana programados para acabar, e fantásticas exposições de sorrisos engomados, peles maquiadas pela felicidade que tiraram de prateleiras. Eu não, eu não combino com hipocrisia, eu combino com a noite e combino com o dia, dependente de meu estado de humor, eu não combino com falsidade, nem com covardia, e por isso tanto tempo sozinha eu me senti, eu desejo ávida a vida, eu não quero embalagens ou passagens para mundo de ilusões, eu combino com os pés no chão, fincados no solo da minha existência, não há medo quando tudo está transparente nos meus olhos, eu quero-me hoje e amanhã, descobri que traumas não existem que algemas não existem que seres humanos sim, são de fato cruéis... Mas eu não sou! Abba! Eu não combino com o mal, não combino com o banal, e isso eu posso escolher. Tenho as heranças de dores que senti, mas elas hoje não tiram mais de mim do que lágrimas de alívio por que fui até onde pude ir, machuquei e errei, mas de tão claro vejo que tinha de ser assim, de tão claro veja-se estou aqui! Justiça da vida, divina ou não, paguei em duras moedas a parte que me coube, e nada mais. E se posso providenciar um dito popular para misturar-se a minhas palavras faça-se “se não está tudo bem é por que não chegou ao fim” E meu eu de novo tão humanamente capaz de parafrasear ditados populares, e o que de mal há nisso?! E o que de mal há em não combinar com farsas sociais? Cansei de ver certos noticiários, seriados, ou novelas? Nãoooo... Essas farsas até que distraem, cansei de sim, de tolerar pessoas me olhando com seus interesses imbecis e molhando de óleo o chão que piso, farsas das esquinas e dos becos dos meus pensamentos, limpei os porões e não mais combino com a acinzentada maldade de quem deseja me destruir com sorrisos, ou me derrubar com flores; não há amargura, tenho amigos e respeito aonde eu for, o caminho certo da vida é pra dentro, onde ao encontro do meu melhor encontrei pessoas que combinam comigo e outras raridades como respeito ao ser humano, compaixão e fé.
Amanda D Apolinário