Naquela fita cassete que eu ouvia sempre passava a música até
chegar na “Vida”... achava linda...quando Padre Fábio de Melo regravou achei
que tinha sido um presente pra mim, na voz missionaria dele ficava ainda mais
bonita, música de esperança, de paz, VIDA; mas minha vida mesmo nunca fez muito
sentido, sempre achei que fosse muito dramático me sentir assim, eu tão pouco
anos, poucas experiências, hoje vejo depois de tanto tempo que continuei sem
entender absolutamente nada de mim, vivo e vivo, mas parece que hoje nada
mudou, a não ser por um acumulado de dores que doem hoje como memórias, não
mais como prenúncios, tentei contar os anos, os fatos, as experiências, mas só
tenho um grande silencio. Ai a ideia de chamar minha velha escrita para tentar
fazer com que as palavras saiam com algum sentido de mim.
Dói, dói muito. É como uma insistente martelada no tecido do
coração, mesmo sabendo que as emoções não estão do lado esquerdo do peito é
aqui que sinto. Uma sensação de não ter feito o que eu deveria ter feito, de
não ter amado minha família como deveria ter amado, de não ter escolhido os
caminhos certos. Uma saudade do que nunca tive, como se a paz de espirito fosse
algo tão longe para mim, e ao mesmo tempo uma inverdade dizer isso de mim
mesma. Faz tempo que não tento escrever com a razão, que simplesmente deixo-me
esquecer esse mesmo tempo, até que tudo que tenho dito não faça absolutamente
nenhum sentido igual a mim. Pessoas passaram pela minha vida, ou melhor, eu
passei pela vida das pessoas, sinto-me como um catalisador de traumas, como se
acelerasse o que essas pessoas nunca queriam viver, como se me amar fosse tão
perigoso, por que não sou compreensível e por que posso gerar um transtorno.
Sinto-me hoje num vazio tão repleto, numa calmaria de interior inquieto, de
verdades escancaradas por que todos sabem o que houve o que fiz, mas eu escondo
de mim que não me orgulho do que fui, por que não sei usar o que aprendi, sim,
aprendi que ter passado pela vida de pessoas e deixado marcas de dor,
deslealdade, pessoas que lutaram e lutam por mim a todo instante e eu não sei
como chegar perto delas com vontade de ficar ali no canto que arrumaram para eu
viver. Quero seguir vivendo o que pode ser minha felicidade, mas o pé preso na dúvida
se poderei me sentir livre insiste em me atormentar. Tormenta porque eu ao
mesmo tempo que tenho certeza do que não quero para mim, duvido de mim quando
me escuto sobre o que é certo. Mas quem saberia me dizer o que é certo, por que
programar-me diante do que o mundo me mostra é muito inquieto, por que minha
mente é muito inquieta. Queria parar de pensar por dias em tudo que já passou,
não é arrependimento, nem saudade, é uma sensação de dúvida em relação ao que
eu mesma posso fazer. Sensatez de ir para onde nunca fui, deixando para trás
sem me sentir uma eterna contrariadora de princípios, sinto como se não
acreditassem que eu posso amar, amo tanto a todos que me coloco abaixo de
qualquer intenção de ferir, tiro a ação de algo que possa magoar e é aí onde
mais magoou, e é justo assim que mais perco a mim mesma. Meus atos são
incoerentes com tudo que pensam sobre mim, julgam-se que tudo que faço é por
que estou profundamente descompensada, mas os princípios que regem a sociedade
é obvio de mais para mim. Não queria menos do que a loucura, queria poder amar
sem ter que fazer o que querem que eu faça, mas eu jamais desejaria ver alguém
que amo 01 ano internada numa clínica por exemplo.. Eu peço a todos que amo,
morram depois de mim, por que sou hoje incapaz de lidar com tudo que gerar uma
dor maior do que a dor de perder a mim mesma. Nunca tive uma boa opinião sobre
mim, nunca fui feliz com o que sou, parece que o pouco tempo de lucidez que
aprendi nos últimos meses me trouxeram uma vontade forte de conhecer meu lado
contrário, acho que nunca me amei, que nunca me amei. Tenho certeza que não é
nada com trauma de infância, nem com sofrimento causado, é sim, algo que nasceu
comigo, queria poder dizer que sou tudo que veem em mim, mas não sou, não posso
dizer que fiz certo ou errado, mas tenho projetos de ser alegre um dia. Queria
que Deus falasse comigo com todas as letras...que não fosse tão enigmático,
queria que Deus me mandasse abraço apertado sem perguntas, que ele dissesse no
meu ouvido o que devo fazer para não machucar, para que dê tudo certo. Queria
saber se as pessoas já me perdoaram e já perceberam que a melhor coisa é estar
longe de mim, e que fui um sopro de tumulto que pode virar uma página virada.
Mas quem virará minha própria pagina sou eu, quem demora para agir de forma
concreta sou eu, queria crer que essa visão turva é apenas uma fase, queria não
me incomodar com a proclamada paciência que tantos me pedem, mas honestamente,
não tenho paciência, não tenho sonhos altos, também, não quero mais inventar o que
não me importa, por que sim, me importa muita coisa, minha família me importa, minha
mulher me importa, minha vida profissional me importa, minha saúde me importa,
apenas não consigo conciliar tudo isso num só plano de viver, preciso ter a
satisfação que posso ficar invisível, na maior parte do tempo preferia que
ninguém me amasse, mas hoje acordei com uma enorme vontade de ser amada por
muitos amigos, que eu tivesse pra onde ir e simplesmente passar o domingo
ouvindo música e comendo churrasco, voltar pra casa, ir ao shopping, dormir ao
lado da mulher que aprendi a amar...sim que me conheceu no meu pior momento, e
senti que algo em mim é de verdade, e mesmo o abraço gratuito que ela me dá
julgo não merecer. Ingratidão que sigo carregando como se tudo que me disseram
um dia tenha sido verdade, que tudo que eu disse também, mas não foram...sim
disse da boca para fora que não saberia de novo amar, mas aprendi que o amor
acontece mesmo. Não sei por onde começar a reescrever minha vida, essa mesma
vida que eu ouvia, mas sei que não me sinto uma pessoa má, eu amo e respeito
minha família sobretudo quando prefiro ficar calada, descobri que não sei mais
quem são minhas irmãs, que não tenho mais os velhos amigos, que minhas
companhias anteriores só tem magoas de mim, que nunca construí nada de
material, que girei e nunca andei em linha reta, passando várias vezes pelos
mesmos erros, descobri que existem mais pessoas do bem do que do mal, que sou
do bem e que não maltrataria uma mosca, que seria muito bom dar aulas
novamente, que seria engraçado reviver algumas farras da época da faculdade,
que é muito ruim lembrar das ligações estupidas que fiz pra alguns amigos,
perdendo-os. É tão estranho ter perdido tanto tempo num emprego ocioso e depois
dele descobrir que poderia ter sido muito pior se eu fosse um pouco mais sã.
Acordo diferente a cada dia, ouço uma música e posso afirmar que ela tem poder
de mexer de verdade com o que sinto por que hoje vivo alimentado saudades da
pessoa que mais me fez feliz até hoje, que ama com toda inutilidade, que
acompanha minhas loucuras como e nem tão loucas forem, e que sei que o mundo crítica,
mas eu queria que isso não fosse uma ofensa, me arrependi de ter aceitado ajuda
por que gera em mim uma dívida silenciosa que eu sei que vai comigo aonde eu
for, mesmo que eu passe bons tempos sem senti-la, por que pessoas adoecem, se
machucam, passam por bons momentos que talvez eu não veja de perto, não queria
sofrer mas sei que sofrerei sempre por que amo minha família, amo meus amigos,
mas só ama-los não basta, por que isso não basta pra ninguém, e eu não tenho
como mudar o que já fiz, não sei como refazer meu ser, recomeço sem nenhuma
perspectiva apenas com o coração apaixonado e o corpo levemente disposto a
seguir sem planos complexos, quero viver minha profissão até onde eu dispuser
de paixão por isso, por que não sei viver sem paixão, sem invenções estupidas,
sem liberdade emocional, sem ilusão pacifica, sem dramas rotineiros, não sei
viver sem bondade e sem silencio, sem quarto fechado e coração preenchido.
Queria esquecer tudo que errei, mas isso é impossível, impossível ser
diferente, Deus me ouve e me diz baixinho o que eu fazer para deixar de viver frustrações,
como desejar e odiar tanto a rotina ao mesmo tempo! Como posso ser transparente
e ao mesmo tempo tão obscura, ser tão segura e ao mesmo tempo tão medrosa, ser
forte e ao mesmo tempo tão frágil...todos são assim...como não ter vaidade em
nenhum sonho e ao mesmo tempo sofrer tanto as perdas...ah as perdas são tão
importantes para os outros e tão ínfimas para mim, queria não ser notada,
queria meu dia sem ter que contar comigo mesma, por que tenho a sensação que
estou sempre cansada para fazer por mim.
Já acalmou a maior parte da minha angustia de hoje, e amanhã
sei que de novo estarei em lagrimas, sei que não estou ao lado dos meus pais
com saúde e sem entender como podem me fazer feliz, e eu também não sei como
faze-los feliz, mas eu os amo. Eu estarei longe do amor da minha vida, mas sei
que ela estará comigo no coração e pensamento e isso me move a ser melhor. Meus
olhos pesam...estou com sede, sono...amanhã vai amanhecer do mesmo jeito, eu
vou ser a mesma, nada vai mudar, se a dor não doer amanhã vai doer depois, quem
sabe eu faça de novo uma carta para alguém que nunca entregarei, será que vale
a pena desengasgar pedidos de desculpas mesmo sem saber como foi estranho me
sentir assim, é difícil, mas é fácil seguir basta conviver. Quero mesmo é poder
agradecer a Deus pelo presente de ter Renata de poder um dia deitar dormir e
acordar ao lado dela, por que sinto que viver sem julgamentos é ser livre pra
mim, mas isso não quer dizer que eu não ame quem me julga, eu amo, só não sei
como agir sem soar como uma falta de respeito, não sei mais o que fazer com
tanta despesa emocional, custos de vida altos, muito altos, mas eu amo, eu vou
chorar de saudades, eu vou me arrepender de muita coisa, mas vou me olhar e ter
a certeza que sou assim mesmo, desconheço o que a mim é convencional por que
não faço nada só por ser conveniente, não suporto mentiras, sou ética e
emotiva, impulsiva e impaciente, mas tudo isso sou principalmente comigo mesma,
fugas não mais me pertencem quero viver
o que restou do terremoto.